Países vulneráveis à crise climática gastam quase 25 vezes mais com dívida do que com iniciativas na área do clima, revela ActionAid
Imagine um país que, a cada R$ 100 que arrecada, precisa usar R$ 65 só para pagar juros e parcelas de dívidas antigas. Sobra pouco para investir em saúde, educação, proteção social e em ações para enfrentar enchentes, secas e ondas de calor. É exatamente isso que acontece em muitos dos países mais afetados pelas mudanças climáticas, segundo um novo relatório da ActionAid lançado nesta quarta-feira (16/9).
O estudo mostra que esses países gastam quase 25 vezes mais com o pagamento de dívidas do que com iniciativas para lidar com a crise climática. Ao mesmo tempo, 93,5% deles já estão com dívidas tão altas que correm o risco de não conseguir pagar suas contas sem prejudicar ainda mais a população.
Por que isso importa?
Quando um país gasta quase tudo o que tem para pagar dívida, sobra menos dinheiro para:
- Construir sistemas de alerta contra enchentes e secas
- Garantir água, comida e abrigo em emergências
- Investir em agricultura que resista melhor ao clima extremo
- Oferecer serviços públicos de qualidade, como saúde e educação
O resultado é que as comunidades ficam mais vulneráveis a desastres, perdem seus meios de vida e têm mais dificuldade para se recuperar.
Um ciclo que se repete
O relatório explica um ciclo que acaba piorando a situação: um desastre climático acontece; o país pede dinheiro emprestado para reconstruir; para pagar essa nova dívida, o governo corta gastos; com menos recursos, investe menos em prevenção; a população fica mais exposta ao próximo desastre — que, quando vem, gera mais dívida.
Além disso, para conseguir dinheiro e pagar os credores, muitos governos acabam incentivando atividades que aumentam as emissões de gases de efeito estufa, como a exploração de petróleo, gás e a agricultura industrial em larga escala. Isso contribui para mais aquecimento global e, consequentemente, para mais desastres.
Quem paga a conta?
Os países do Sul Global onde está a maioria das nações mais vulneráveis pagam cerca de 225 vezes mais em dívidas do que recebem em financiamento climático na forma de doações. Em números, são US$ 8,8 trilhões em pagamentos de dívida em 2026, contra apenas US$ 39 bilhões em doações para o clima em 2024.
Para completar, dois terços do que os países ricos chamam de “financiamento climático” chegam na verdade como empréstimos, e não como doações. Ou seja: em vez de ajudar de verdade, esse “apoio” muitas vezes aumenta a dívida e limita ainda mais a capacidade desses países de agir.
“A dívida representa um golpe triplo para o clima: impulsiona a expansão dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, bloqueia ações climáticas vitais e deixa as comunidades perigosamente expostas quando ocorrem desastres”, resume Teresa Anderson, líder global de Justiça Climática da ActionAid Internacional.
O que pode mudar?
O relatório de 2026 aponta caminhos para romper esse ciclo. A ActionAid e organizações aliadas defendem medidas como:
- Cancelar dívidas impagáveis ou injustas de países que gastam mais de 10% de suas receitas pagando dívida externa.
- Criar uma regra automática para suspender o pagamento da dívida sempre que um país for atingido por um desastre climático grave.
- Garantir que o financiamento climático seja oferecido como doação, e não como empréstimo que vira mais dívida.
Segundo o estudo, se as dívidas dos países mais vulneráveis fossem canceladas, seria possível liberar recursos para financiar seis vezes seus planos climáticos nacionais básicos. Também daria para cobrir duas vezes os gastos combinados com clima, saúde, educação e proteção social.
Quer se aprofundar nos dados e nas recomendações?
Leia o relatório completo Dívida agrava crise climática: Como o Financiamento Flui está disponível online
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