Primeiro índice que mede justiça econômica integrando raça e gênero é lançado no Brasil com a participação da ActionAid
O Fundo Agbara, em parceria com a ActionAid e a Fundação Volkswagen, desenvolveu uma ferramenta inédita para medir a desigualdade econômica de forma precisa: o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER). Lançado durante o 1º Fórum Econômico de Mulheres Negras, realizado no Museu Afro Brasil, que envolveu pesquisadores, membros de governo, sociedade civil, setor privado e filantropia, o índice combina educação, trabalho, renda e moradia em uma única métrica, com raça e gênero integrados desde sua construção. A ActionAid foi co-realizadora no planejamento e execução da pesquisa.
Assim, foi possível revelar que entre 2016 e 2023, a hierarquia entre grupos sociais no país permaneceu praticamente inalterada, independente de eventuais avanços no período. O índice varia de 0 a 1: quanto mais próximo de 1, maior o acesso à justiça econômica. Em 2023, o registro foi de 0,69 para homens brancos, 0,60 para mulheres brancas, 0,60 para homens negros e 0,53 para mulheres negras, numa hierarquia que se manteve estável em todos os anos analisados. A média nacional foi de 0,59. Mulheres negras são o único grupo que permanece sistematicamente abaixo dessa média em todo o período, com um gap de 0,16 em relação aos homens brancos que não se fechou entre 2016 e 2023.
Esse lançamento acontece no fim de uma jornada de mais de dois anos, possível através da colaboração entre organizações. Maryellen Crisóstomo, especialista em Justiça Econômica e Direito das Mulheres da ActionAid, destaca a importância de uma ferramenta que reflita a realidade social para uma melhor criação de políticas públicas.
“Metodologicamente, o IJER demonstra que em um período de 10 anos, tudo o que se propagou sobre crescimento de renda, não foi sobre mulheres negras. Esse grupo sempre ficou no patamar mais baixo do crescimento de renda. Isso materializa o que já denunciamos sobre o racismo estrutural que também proporciona injustiça econômica. Agora temos uma ferramenta estratégica com dados estatísticos para incidência e tomada de decisão em prol da reparação econômica para mulheres negras brasileiras.”
Essa capacidade de intersecção é justamente o diferencial metodológico desse índice. Ao integrar raça e gênero desde a construção da metodologia, e não apenas como variáveis isoladas, o IJER captura desigualdades que métricas tradicionais tendem a invisibilizar. Índices como o IDH ou o Gini medem renda ou desenvolvimento de forma agregada, sem revelar como esses resultados se distribuem entre grupos específicos. O IJER preenche essa lacuna e será atualizado anualmente, permitindo monitorar a evolução das desigualdades e avaliar o impacto de políticas ao longo do tempo.
Desenvolvido com a possibilidade de ser uma ferramenta de monitoramento contínuo, o IJER é destinado a gestores públicos, organizações da sociedade civil, pesquisadores, filantropia e organismos internacionais. A proposta é qualificar o debate econômico no país com evidências que incorporem fatores estruturais historicamente ausentes das análises convencionais.
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