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Países vulneráveis à crise climática gastam quase 25 vezes mais com a dívida do que com iniciativas na área do clima, revela novo relatório da ActionAid

Data: 16/09/2026 Por: ActionAid
  • Novo relatório revela que os países mais vulneráveis à crise climática estão gastando quase 25 vezes mais com o pagamento de dívidas do que com ações climáticas, enquanto o serviço da dívida absorve 65% de suas receitas governamentais combinadas.
  • O Sul Global está pagando aproximadamente 225 vezes mais em dívidas do que recebe em financiamento climático na forma de doações: US$ 8,8 trilhões em pagamentos da dívida em 2026, em comparação com o dado mais recente de US$ 39 bilhões em doações para o clima em 2024.
  • 93,5% dos países mais vulneráveis à crise climática estão em situação de sobre-endividamento ou sob risco significativo de chegar a essa condição.
  • O cancelamento da dívida dos países vulneráveis à crise climática poderia liberar recursos para financiar seis vezes seus planos climáticos nacionais básicos e incondicionais ou cobrir, duas vezes, os gastos com clima, saúde, educação e proteção social somados.

As dívidas soberanas de países que estão na linha de frente da crise climática estão drenando seus recursos e deixando comunidades mais expostas ao agravamento de enchentes, secas, ondas de calor e da fome. É isso que revela o estudo “Dívida agrava crise climática: Como o Financiamento Flui”, novo relatório global da ActionAid, lançado nesta quarta-feira (16 /9). No documento, a organização internacional analisa receitas públicas, pagamentos de dívidas, orçamentos nacionais e planos climáticos dos 65 países mais vulneráveis à crise climática. A conclusão é que dívida e clima estão presos em um ciclo vicioso, mas que pode ser rompido. Arthur Larok, secretário-geral da ActionAid Internacional, afirma:

Por tempo demais, as crises da dívida e do clima foram tratadas separadamente. Esta pesquisa revela como elas estão profundamente interligadas e quantifica o custo devastador envolvido.

O ciclo vicioso identificado pelo relatório envolve as seguintes etapas: os desastres climáticos forçam os países a contraírem novos empréstimos para se recuperarem; em seguida, o pagamento das dívidas e as medidas de austeridade comprimem os investimentos em resposta, resiliência, serviços públicos essenciais e transição justa. Para obter as divisas exigidas pelos credores, os governos também enfrentam pressão para ampliar a extração de combustíveis fósseis e a agricultura industrial, impulsionando mais emissões, danos ecológicos e desastres climáticos — e ainda mais dívida. Outro ponto importante trazido pelo estudo é que dois terços do que os países ricos classificam como financiamento climático chegam na forma de empréstimos, e não de doações, grande parte deles com altas taxas de juros comerciais. Isso cria uma ilusão de apoio, ao mesmo tempo que empurra os países receptores para um endividamento ainda maior.

Teresa Anderson, líder global de Justiça Climática da ActionAid Internacional e uma das autoras do relatório, resume:

A dívida representa um golpe triplo para o clima: impulsiona a expansão dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, bloqueia ações climáticas vitais e deixa as comunidades perigosamente expostas quando ocorrem desastres. Esta é uma relação tóxica. Os países contraem empréstimos para reconstruir, a austeridade enfraquece sua resiliência e a pressão para pagar as dívidas leva a mais extração, alimentando o desastre seguinte.

A autora reforça:

Esse ciclo vicioso pode e deve ser rompido. É preciso cancelar dívidas injustas e insustentáveis, parar de obrigar os países a contraírem empréstimos para sobreviver aos impactos climáticos, além de fornecer financiamento climático na forma de doações, em vez de empréstimos.

O relatório também apresenta exemplos de como a dívida desvia recursos das soluções climáticas. No Senegal, em 2026, o serviço da dívida equivale a mais de 600 vezes o valor previsto no orçamento do país para ações climáticas e supera 96% das receitas governamentais. Isso mostra que os altos níveis de endividamento estão adiando, por exemplo, investimentos em agroecologia, uma solução liderada pelas próprias populações que pode fortalecer a segurança alimentar, os meios de vida e a resiliência climática.

No relatório, a ActionAid e seus aliados reivindicam que governos e instituições internacionais:

  • Cancelem dívidas impagáveis ou injustas dos países que gastam mais de 10% de suas receitas com o pagamento da dívida externa.
  • Acordem uma regra universal para suspender o pagamento das dívidas de qualquer país atingido por um desastre climático, aplicável a todos os credores, e não apenas àqueles que aderirem voluntariamente.
  • Criem uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Dívida Soberana que dê aos países endividados igualdade de voz e estabeleça um mecanismo multilateral e justo para a resolução das dívidas.
  • Aprovem legislações em Londres e Nova York que exijam a participação efetiva dos credores privados nos processos de reestruturação de dívidas. Cerca de 90% dos contratos de títulos soberanos são regidos pela legislação do Reino Unido.
  • Regulem as agências de classificação de risco existentes para eliminar conflitos de interesse e vieses e estabeleçam agências de classificação de risco regionais e públicas ou uma agência multilateral de classificação de risco.
  • Garantam que o financiamento climático seja fornecido na forma de doações, e não de empréstimos ou de quaisquer outros instrumentos financeiros geradores de dívida, e que seja suficiente para responder à dimensão da crise climática.
  • Reformem as avaliações de sustentabilidade da dívida para que as respostas climáticas, os serviços públicos e os direitos humanos ocupem um lugar central nas decisões sobre quanto os países têm condições de pagar.
  • Realizem auditorias públicas da dívida e do clima nos países que enfrentam crises de endividamento, a fim de examinar como as dívidas interna e externa aprofundam os impactos climáticos, a pobreza e a exclusão — especialmente para mulheres e meninas — e identificar ações para romper esse ciclo.

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Sobre a ActionAid

A ActionAid é uma organização internacional que atua na promoção da justiça social, racial, de gênero e climática e pelo fim da pobreza em mais de 70 países, por meio de parcerias com outras organizações e movimentos sociais. No Brasil, a organização completa 26 anos de atuação, já tendo trabalhado em mais de 2.400 comunidades e beneficiado mais de 300 mil pessoas.

Notas aos editores:

  • O relatório completo, Dívida agrava crise climática: Como o Financiamento Flui, estará disponível on-line a partir de quarta-feira, 16 de setembro de 2026, neste endereço: . O resumo em português está disponível aqui.
  • Metodologia: a ActionAid trabalhou com a Development Finance International (DFI) para analisar os dados disponíveis sobre receitas domésticas, dívida, orçamentos nacionais e planos climáticos dos 65 países — equivalente ao terço que lidera a lista — mais vulneráveis às mudanças climáticas. As fontes completas, os países incluídos e os detalhes metodológicos são apresentados no relatório completo.
  • Este é o quarto relatório da série anual global Como fluem os recursos financeiros, da ActionAid, que examina os fluxos financeiros que alimentam a crise climática. Os relatórios anteriores analisaram como bancos globais financiam os combustíveis fósseis e a agricultura industrial no Sul Global (2023), os recursos públicos e subsídios que apoiam esses setores (2024) e o limitado financiamento climático destinado a abordagens de transição justa (2025).
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