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Brasil lança primeiro índice que mede justiça econômica com raça e gênero integrados e resultado revela sete anos de desigualdade sem mudança estrutural

Data: 26/05/2026 Por: ActionAid

Desenvolvido pelo Fundo Agbara com ActionAid Brasil e Fundação Volkswagen, primeiro índice brasileiro a cruzar raça e gênero numa única métrica comprova o que dados isolados não conseguiam mostrar: mulheres negras são o único grupo que nunca alcançou a média nacional em sete anos de medição

São Paulo, maio de 2026 — O Brasil ganhou uma ferramenta inédita para medir desigualdade econômica com precisão: o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), desenvolvido pelo Fundo Agbara em parceria com a ActionAid Brasil e a Fundação Volkswagen. Lançado em 14 de maio durante o 1º Fórum Econômico de Mulheres Negras, o índice combina educação, trabalho, renda e moradia em uma única métrica, com raça e gênero integrados desde sua construção, e revela que, entre 2016 e 2023, a hierarquia entre grupos sociais no país permaneceu praticamente inalterada, independente dos avanços pontuais registrados no período.

O IJER varia de 0 a 1: quanto mais próximo de 1, maior o acesso à justiça econômica. Em 2023, o índice registrou 0,69 para homens brancos, 0,60 para mulheres brancas, 0,60 para homens negros e 0,53 para mulheres negras, numa hierarquia que se manteve estável em todos os anos analisados. A média nacional foi de 0,59. Mulheres negras são o único grupo que permanece sistematicamente abaixo dessa média em todo o período, com um gap de 0,16 em relação aos homens brancos que não se fechou entre 2016 e 2023. Um achado revela a profundidade da desigualdade interseccional: mulheres brancas apresentam IJER consistentemente superior ao de homens negros, evidência de que raça e gênero não operam de forma isolada, mas produzem posições específicas e acumuladas na estrutura de oportunidades.

"A desigualdade econômica no Brasil tem cor e gênero, e está diretamente ligada a um modelo que se sustenta na desvalorização histórica do trabalho e da vida das mulheres negras", afirma Priscila Soares, coordenadora de pesquisa no Fundo Agbara.

O diferencial metodológico está justamente nessa abordagem interseccional: ao integrar raça e gênero desde a construção da metodologia, e não apenas como variáveis isoladas, o IJER captura desigualdades que métricas tradicionais tendem a invisibilizar. Índices como o IDH ou o Gini medem renda ou desenvolvimento de forma agregada, sem revelar como esses resultados se distribuem entre grupos específicos. O IJER preenche essa lacuna e será atualizado anualmente, permitindo monitorar a evolução das desigualdades e avaliar o impacto de políticas ao longo do tempo.

Para contextualizar os resultados, a taxa de desocupação de mulheres negras era de 10,8% em 2023, mais que o dobro da registrada entre homens brancos (4,8%), e a renda domiciliar per capita desse grupo foi de R$ 1.402,18, menos da metade dos R$ 2.844,21 de homens brancos. Esses indicadores compõem o IJER e ajudam a explicar por que mulheres negras concentram sistematicamente os menores valores do índice em todas as dimensões analisadas: educação, trabalho, renda e moradia.

"Não se trata apenas de acesso ao trabalho, mas da qualidade dessas oportunidades. As mulheres negras seguem concentradas em posições mais vulneráveis e com menor retorno econômico", diz Iracema Souza, gerente de Conhecimento e Advocacy do Fundo Agbara.

A análise regional reforça o diagnóstico: em todas as regiões do país, independentemente do nível de desenvolvimento econômico, a hierarquia entre grupos se repete. Mesmo nos estados com maiores valores do IJER, concentrados no Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste, mulheres negras não

alcançam a média nacional do índice. No Norte e Nordeste, onde os níveis são mais baixos para todos os grupos, a desvantagem interseccional se aprofunda, evidenciando que território e raça interagem na produção da desigualdade.

O estudo questiona diretamente a eficácia de políticas universalistas. Sem recortes de raça e gênero, essas políticas tendem a beneficiar de forma desproporcional os grupos que já partem de posições mais vantajosas, contribuindo para a manutenção das desigualdades ao longo do tempo. Para os pesquisadores, é urgente reposicionar a justiça econômica como eixo central das prioridades públicas, com foco em redistribuição de recursos e enfrentamento direto ao racismo e ao sexismo estruturais.

Desenvolvido com a possibilidade de ser uma ferramenta de monitoramento contínuo, o IJER é destinado a gestores públicos, organizações da sociedade civil, pesquisadores, filantropia e organismos internacionais. A proposta é qualificar o debate econômico no país com evidências que incorporem fatores estruturais historicamente ausentes das análises convencionais.

O lançamento do estudo aconteceu durante o 1º Fórum Econômico de Mulheres Negras, que reuniu especialistas, gestores públicos e representantes da sociedade civil para discutir os resultados e caminhos para a redução das desigualdades no país. Acesse a pesquisa aqui.

Sobre o Fundo Agbara

O Fundo Agbara é o primeiro fundo filantrópico criado por e para mulheres negras no Brasil. Atua para garantir o Bem Viver por meio do fortalecimento de iniciativas e organizações lideradas por mulheres negras que transformam territórios e promovem justiça econômica, racial, de gênero e climática. Desde 2020, desenvolve estratégias integradas que articulam inovação, fomento, produção de conhecimento e advocacy, combinando a redistribuição de poder e recursos, a reparação de desigualdades históricas e a regeneração de territórios e das relações com a natureza, com o objetivo de influenciar políticas públicas, práticas institucionais e imaginários sociais.Em quase seis anos de atuação, o Fundo Agbara já potencializou cerca de 600 iniciativas lideradas por mulheres negras, fortaleceu mais de 5 mil mulheres e impactou mais de 20 mil pessoas, com presença em 25 dos 27 estados brasileiros.

Sobre a ActionAid Brasil

A ActionAid é uma organização internacional que atua na promoção da justiça social, racial, de gênero e climática e pelo fim da pobreza em mais de 70 países, por meio de parcerias com outras organizações e movimentos sociais. No Brasil, a organização completa 25 anos de atuação, já tendo trabalhado em mais de 2.400 comunidades e beneficiado mais de 300 mil pessoas.

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