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Histórias de Mudança Agroecologia e Clima

Conheça a história de Ritinha, que fez de seu quintal que “não dava nada” uma “casa que se esconde no meio do verde”

Data: 03/03/2026 Por: ActionAid

No interior da Paraíba, na comunidade de Benefício, a terra é um repositório de memórias e um legado que atravessa gerações. Para Rita Izidoro, de 62 anos, o caminho de volta para casa levou mais de duas décadas. Ritinha, como é carinhosamente conhecida, viveu por 24 anos no Rio de Janeiro, trabalhando em casas de família e como camelô, mas o pulsar da agricultura que herdou de seus pais, avós e bisavós nunca silenciou dentro dela.

Quando retornou para a zona rural de Esperança para cuidar dos pais e do sítio da família, o cenário que encontrou era desafiador. A terra parecia cansada, depois de anos de tratamentos impróprios, e a própria Ritinha carregava uma timidez sobre sua identidade: quando perguntada sobre sua profissão, dizia ser "dona de casa", escondendo sob o silêncio o orgulho de ser agricultora. A transformação começou quando os horizontes se abriram através do conhecimento. Ao se aproximar da AS-PTA, organização parceira da ActionAid na região, e participar de reuniões articuladas pelas organizações, Ritinha redescobriu a potência do seu território e de suas próprias mãos.

“Conheci um mundo diferente. Eu tinha conhecimento sobre a terra, mas a terra bruta, como meus pais cuidavam. Mas através dos intercâmbios promovidos pela AS-PTA, do Sindicato, dos encontros, eu comecei a trabalhar na terra de outra forma. Comecei a não queimar mais. Eu aprendi a tratar diferente, tanto que hoje a terra está rica. Eu vi que eu podia tirar daqui frutas, verduras e legumes, além dos meus pés de planta. Hoje, as pessoas perguntam como consigo fazer isso. Não é querendo me exibir, mas se você andar por aqui, de todos os lugares, essa é a casa que se esconde no meio do verde. Tudo graças a esses conhecimentos.”
Ritinha, que antes tinha vergonha de se denominar agricultora, hoje exibe com orgulho seu oásis verde repleto de árvores frutíferas, verduras e muito alimento saudável / Foto: Géssica Amorim / ActionAid

A terra que antes sofria com o uso de químicos e o desmatamento ao redor começou a ser curada com o carinho da agroecologia. Ritinha tornou-se uma guardiã das "Sementes da Paixão" — sementes crioulas, livres de transgênicos, que carregam a história genética e cultural do povo paraibano. O banco de sementes beneficia também diversos outros agricultores da região, funcionando em uma base de solidariedade e confiança: quem precisa leva o feijão ou o milho para plantar e, após a colheita, devolve o que pegou com uma pequena parte a mais, garantindo que o ciclo de abundância nunca se feche.

A ActionAid atua como facilitadora nesse processo, viabilizando as ferramentas e o apoio técnico para que as reuniões entre mulheres agricultoras floresçam e gerem mudanças reais na percepção que elas têm de si mesmas. Hoje, o sítio Benefício é um testemunho vivo de resiliência. Onde antes havia vergonha, agora transborda o orgulho de quem entende que cuidar da semente é cuidar de uma preciosidade que alimenta o futuro, e que cuidar da terra também significa lutar pelos seus direitos. Ao longo dos anos, Ritinha viu a comunidade ao seu redor se transformar, e esteve presente em quase todas as edições da Marcha pela vida das Mulheres e pela Agroecologia, realizada anualmente pela AS-PTA.

“Treze vezes, das 15 edições, que eu vou e cada vez a emoção é diferente. Ainda dá um frio na barriga, parece que é a primeira. Dá vontade de chorar, fico me segurando para ser forte. Quando começa a entrar aquela mulherada toda, eu vejo e digo: “meu Deus, isso não existe”.  Hoje temos crianças, adolescentes e homens participando. Nas primeiras a gente quase não via homens. Como cresceu! Dá um orgulho danado. Nós deixamos tudo para lutar pelo nosso território. É uma multidão lutando pelos nossos direitos.”

Ao olhar para as crianças e jovens da comunidade participando das reuniões, Ritinha sorri com a certeza de que a sementinha plantada deu certo. Para ela, a evolução aconteceu na forma de lidar com o roçado e na maneira de se enxergar como pessoa e como parte fundamental de uma engrenagem que protege a vida. No quintal de Ritinha, a esperança não é um conceito abstrato; ela tem cor, cheiro de terra molhada e a força de quem sabe que, com o apoio certo e o respeito à natureza, tudo o que é plantado com amor acaba por florescer.

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